O preto que era velho
Baseado em fatos reais
Era uma família brasileira comum, com pai, mãe, e dois irmãos; Rodrigo e Renato.
A mãe era professora aposentada e o pai um exemplar coronel do exercito, então desde cedo a família acostumou-se a mudanças constantes de cidades e estados pelo país. Com isso os dois irmãos absorveram desde a infância vários costumes, sotaques e culturas diferentes. E alem disso passavam as férias ouvindo os causos fascinantes que seus avós contavam sempre depois do jantar.
A cada chão que pisavam absorviam as lendas e ditos populares de cada local, porém tratavam tudo que ouviam com um olhar cético e descrente.
Tiveram uma boa educação e formação católica, mas quando a mãe mencionava as lembranças de uma tia avó distante, praticante de Umbanda os meninos ouviam com atenção e certo preconceito, mas sempre curiosos, tentavam entender o mundo afro-brasileiro a qual esta mulher pertencia.
Certo dia a vó Dilma ligou para avisar que sua irmã, a tia avó Francisca havia falecido e deixou uma mensagem para a mãe de Rodrigo e Renato. Ela ouvira a mensagem sem dar muita atenção e não comentou nada com ninguém.
Meses mais tarde a família decidiu passar as férias na pequena cidade de Soure na ilha de Marajó no estado do Pará onde se hospedaram em uma bela pousada de frente para a praia de rio.
No segundo dia começaram uma maratona de passeios históricos pelas ruínas da cidade, museus, igrejas antigas, praças e lojas de artesanato. No terceiro dia os irmãos resolveram passar o dia assistindo TV e tomando banho na praia ao invés de programas turísticos que consideravam chatos, o que é típico na adolescência.
No quarto começaram a conversar e a traçar os planos para uma possível “balada” pela noite.
__ O que faremos esta noite Renato?
__ Não sei, estou odiando essas férias, estamos literalmente ilhados, sem nossas namoradas e nada de interessante para fazer. O que você tem em mente?
__ Bom, a piscina será fechada para manutenção as dez horas, o salão de jogos será fechado no mesmo horário. Minha ultima opção é o american bar que fica na praia. O que você acha?
__ Boa idéia! Assim poderemos tomar banho a luz da lua e beberemos ate cair.
__ Então está decidido. Logo após o jantar esperaremos papai e mamãe dormir e iremos para a praia. Quem sabe poderemos encontrar algumas hospedes gostosas.
Dito e feito. Após o delicioso jantar regional com os pais os irmãos dirigiram-se para sua suíte e esperaram pela meia noite e saíram rumo a praia.
Chegando lá foram direto para o bar que também encontrava-se fechado e a praia estava quase deserta, a não ser pela presença de um ancião negro que se embalava em uma cadeira de bambú e fumava cachimbo tranquilamente apreciando a noite.
Os irmãos curiosos puxaram conversa com o simples homem.
__ Boa noite senhor.
__ Boa noite jovens, em que posso ajudar? Respondeu o negro com uma voz engraçada e um sotaque que os irmãos nunca tinham visto.
__ Não vejo ninguém aqui, o bar não esta funcionando?
__ A esta hora não, mas se quiserem beber alguma coisa terão que se dirigem a recepção.
__ O senhor trabalha aqui?
__ Sim, sou o vigia noturno da praia, para o caso de algum banhista se afogar durante a madrugada.
__ Me chamo Rodrigo e este é meu irmão Renato. Como é o seu nome?
__ Me chamo Quitério mas aqui todos me conhecem como Ogum, estão gostando da ilha?
__ Sim, mas faltam programações para os jovens pela noite.
__ O senhor trabalha aqui há muito tempo?
__ Já faz alguns anos que habito esta grande ilha.
__ Eu e meu irmão vamos beber um pouco, o senhor aceita uma bebida?
__ Não posso beber durante o trabalho, mas como estamos longe da recepção e ninguém é de ferro, aceito uma dose de cachaça.
__ Certo, então vamos beber.
Os irmãos foram até a recepção e pediram duas de muitas cervejas e uma de seis doses de cachaça que seriam consumidas pela noite.
E assim foi uma madrugada de muitas conversas intelectuais e gargalhadas regadas a muito álcool.
Por volta das quatro horas da manha, já cansados os dois irmãos se despediram do velho homem e combinaram de se encontrar na próxima noite no mesmo local, foi quando o negro entregou seu chapéu de palha para os irmãos como garantia que pagaria pelas doses de cachaça, os meninos não concordaram a princípio, mas o velho insistiu e assim foi feito.
No dia seguinte os irmãos acordaram com seus pais batendo na porta do quarto na hora do almoço. Após a refeição decidiram ir a recepção para perguntar sobre o velho negro que conheceram na ultima madrugada.
__ Boa tarde, gostaríamos de saber a que horas o senhor Quitério chega para trabalhar.
__ Quem é senhor Quitério?
__ É o vigia noturno da praia.
__ Mas não existe nenhum vigia noturno da praia e também nunca ouvi falar de algum Quitério que trabalha ou trabalhou aqui.
__ Temos certeza que ele existe, pois passamos a madrugada passada com ele na praia e ele até nos deu o seu chapéu.
__ Desculpe senhores, mas posso afirmar com toda a certeza que neste hotel não há nenhum funcionário chamado Qutério e muito menos um vigia noturno da praia.
__ Então poderia verificar para nós quantas doses de cachaça foram consumidas por nós ontem anoite?
__ Pois não, um momento por favor. Foram consumidas dezoito latas de cerveja e seis doses de cachaça, porém as doses de cachaça já foram pagas pela manhã.
__ Como assim? Nós não pagamos nada.
__ De acordo com o computador vocês estão devendo somente as latas de cerveja.
__ Impossível! Renato, vá até o quarto e traga o chapéu que o senhor Quitério nos deu.
Renato foi até o quarto e vasculhou tudo mas não encontrou o chapéu de palha do velho negro
Só então os dois irmãos começaram a entender e temer o que estava acontecendo.
O senhor Quitério seria na verdade o espírito de um preto velho da Umbanda.
Quando contaram a história a seus pais eles riram e disseram que estavam bêbados e viram coisas, mas a mãe logo se lembrou da mensagem de sua tia avó no leito de morte que dizia:
“Amada sobrinha, partirei sem conhecer os seus filhos, mas mandarei um amigo escravo para protege-los em sua caminhada, com amor, tia Francisca”