Escreveu não leu, o pau comeu!

Seja bem vindo, aqui você vai encontrar crônicas, contos e poesias por mim escritos dentro de alguns anos. Coisas simples do cotidiano, reflexões, gastronomia e até delírios literarios. Sintam-se a vontade e aproveitem.
Não esqueça de comentar.































































domingo, 24 de outubro de 2010

Ah! Se eu soubesse...
Por Alaor A. Filho



Vejam só como é a vida, depois de anos em busca da “verdade absoluta” de Raul Seixas , duas esposas, duas amantes e quatro filhos, confesso que estou decepcionado.
Aqui estou eu, o patriarca da família na cabeceira da mesa de jantar. Ouvindo atento aos cochichos de gente que eu nem conheço, e se pudesse, jamais convidaria para esta ocasião.
Na garagem onde ficava o carro que já deve estar vendido, lá estão alguns falsos amigos jogando canastra, sinceramente eu prefiro buraco, mas isso não vem ao caso.
No pátio de varanda um semicírculo de parentes insuportáveis fazendo  nuvens de fumaça e contando piadas sem graça alguma.
Muitos compareceram somente pelo coquetel de salgadinhos, refrigerante e café dos cinco éfes: fraco, feio, fedido e com formiga no fundo.
O clima é de tensão e mistério, pois ninguém sabe onde escondi todo o dinheiro do banco, mas fiz um mapa para não ficar tão fácil assim. O pior e ter que aturar as hipocrisias e elogios dos bajuladores do senado, até parece que virei santo.
Sinto pena de minha esposa que já era depressiva e agora vai piorar com a chegada de minha amante no tão esperado evento, com certeza as duas vão sair no tapa, e não vou apartar briga de perua nem se pudesse, bem feito, quem mandou fazer greve de sexo.
O mais interessante de tudo é que eu continuo vendo tudo, nunca imaginei que poderia ver com tanta clareza uma situação assim.
Foi quando o meu cunhado metido a poeta debruçou-se em meus pés e declamou seu mais novo poema dedicado a mim:

“A visão sempre foi muito mais que um sentido,
Um sentimento complexo.
Ao mesmo tempo ela não possui som nem fala.
O que vemos então?
Você condenaria um grande abuso?
O que você ainda não viu?
Não toque neste ou naquele assunto.
Queimou os olhos de quem quis.
Trocou pelos seus próprios olhos e pode ver as únicas coisas que ainda não viu.
Só depois viu o que sempre quis ver.
Vá dormir e não veja mais nada,
Pelo seu próprio bem.
Embora você não saiba os seus olhos também dormem.
Desista dos óculos, da amizade e tente não morrer antes do fim.”

Logo depois meus filhos fecharam a tampa e seguimos viagem.
Ah se eu soubesse que o meu velório seria assim, nunca teria disparado uma arma contra o meu ouvido.


Alaor Azambuja Filho é especialista em Língua Portuguesa com batatas e azeitonas.

domingo, 3 de outubro de 2010

O preto que era velho

Baseado em fatos reais

Era uma família brasileira comum, com pai, mãe, e dois irmãos; Rodrigo e Renato.
A mãe era professora aposentada e o pai um exemplar coronel do exercito, então desde cedo a família acostumou-se a mudanças constantes de cidades e estados pelo país. Com isso os dois irmãos absorveram desde a infância vários costumes, sotaques e culturas diferentes. E alem disso passavam as férias ouvindo os causos fascinantes que seus avós contavam sempre depois do jantar.
A cada chão que pisavam absorviam as lendas e ditos populares de cada local, porém tratavam tudo que ouviam com um olhar cético e descrente.
Tiveram uma boa educação e formação católica, mas quando a mãe mencionava as lembranças de uma tia avó distante, praticante de Umbanda os meninos ouviam com atenção e certo preconceito, mas sempre curiosos, tentavam entender o mundo afro-brasileiro a qual esta mulher pertencia.
Certo dia a vó Dilma ligou para avisar que sua irmã, a tia avó Francisca havia falecido e deixou uma mensagem para a mãe de Rodrigo e Renato. Ela ouvira a mensagem sem dar muita atenção e não comentou nada com ninguém.
Meses mais tarde a família decidiu passar as férias na pequena cidade de Soure na ilha de Marajó no estado do Pará onde se hospedaram em uma bela pousada de frente para a praia de rio.
No segundo dia começaram uma maratona de passeios históricos pelas ruínas da cidade, museus, igrejas antigas, praças e lojas de artesanato. No terceiro dia os irmãos resolveram passar o dia assistindo TV e tomando banho na praia ao invés de programas turísticos que consideravam chatos, o que é típico na adolescência.
No quarto começaram a conversar e a traçar os planos para uma possível “balada” pela noite.
__ O que faremos esta noite Renato?
__ Não sei, estou odiando essas férias, estamos literalmente ilhados, sem nossas namoradas e nada de interessante para fazer. O que você tem em mente?
__  Bom, a piscina será fechada para manutenção as dez horas, o salão de jogos será fechado no mesmo horário. Minha ultima opção é o american bar que fica na praia. O que você acha?
__ Boa idéia! Assim poderemos tomar banho a luz da lua e beberemos ate cair.
__ Então está decidido. Logo após o jantar esperaremos papai e mamãe dormir e iremos para a praia. Quem sabe poderemos encontrar algumas hospedes gostosas.
Dito e feito. Após o delicioso jantar regional com os pais os irmãos dirigiram-se para sua suíte e esperaram pela meia noite e saíram rumo a praia.
Chegando lá foram direto para o bar que também encontrava-se fechado e a praia estava quase deserta, a não ser pela presença de um ancião negro que se embalava em uma cadeira de bambú e fumava cachimbo tranquilamente apreciando a noite.
Os irmãos curiosos puxaram conversa com o simples homem.
__ Boa noite senhor.
__ Boa noite jovens, em que posso ajudar? Respondeu o negro com uma voz engraçada e um sotaque que os irmãos nunca tinham visto.
__ Não vejo ninguém aqui, o bar não esta funcionando?
__ A esta hora não, mas se quiserem beber alguma coisa terão que se dirigem a recepção.
__ O senhor trabalha aqui?
__ Sim, sou o vigia noturno da praia, para o caso de algum banhista se afogar durante a madrugada.
__ Me chamo Rodrigo e este é meu irmão Renato. Como é o seu nome?
__ Me chamo Quitério mas aqui todos me conhecem como Ogum, estão gostando da ilha?
__ Sim, mas faltam programações para os jovens pela noite.
__ O senhor trabalha aqui há muito tempo?
__ Já faz alguns anos que habito esta grande ilha.
__ Eu e meu irmão vamos beber um pouco, o senhor aceita uma bebida?
__ Não posso beber durante o trabalho, mas como estamos longe da recepção e ninguém é de ferro, aceito uma dose de cachaça.
__ Certo, então vamos beber.
Os irmãos foram até a recepção e pediram duas de muitas cervejas e uma de seis doses de cachaça que seriam consumidas pela noite.
E assim foi uma madrugada de muitas conversas intelectuais e gargalhadas regadas a muito álcool.
Por volta das quatro horas da manha, já cansados os dois irmãos se despediram do velho homem e combinaram de se encontrar na próxima noite no mesmo local, foi quando o negro entregou seu chapéu de palha para os irmãos como garantia que pagaria pelas doses de cachaça, os meninos não concordaram a princípio, mas o velho insistiu e assim foi feito.

No dia seguinte os irmãos acordaram com seus pais batendo na porta do quarto na hora do almoço. Após a refeição decidiram ir a recepção para perguntar sobre o velho negro que conheceram na ultima madrugada.
__ Boa tarde, gostaríamos de saber a que horas o senhor Quitério chega para trabalhar.
__ Quem é senhor Quitério?
__ É o vigia noturno da praia.
__ Mas não existe nenhum vigia noturno da praia e também nunca ouvi falar de algum Quitério que trabalha ou trabalhou aqui.
__ Temos certeza que ele existe, pois passamos a madrugada passada com ele na praia e ele até nos deu o seu chapéu.
__ Desculpe senhores, mas posso afirmar com toda a certeza que neste hotel não há nenhum funcionário chamado Qutério e muito menos um vigia noturno da praia.
__ Então poderia verificar para nós quantas doses de cachaça foram consumidas por nós ontem anoite?
__ Pois não, um momento por favor. Foram consumidas dezoito latas de cerveja e seis doses de cachaça, porém as doses de cachaça já foram pagas pela manhã.
__ Como assim? Nós não pagamos nada.
__ De acordo com o computador vocês estão devendo somente as latas de cerveja.
__ Impossível! Renato, vá até o quarto e traga o chapéu que o senhor Quitério nos deu.
Renato foi até o quarto e vasculhou tudo mas não encontrou o chapéu de palha do velho negro
Só então os dois irmãos começaram a entender e temer o que estava acontecendo.
O senhor Quitério seria na verdade o espírito de um preto velho da Umbanda.
Quando contaram a história a seus pais eles riram e disseram que estavam bêbados e viram coisas, mas a mãe logo se lembrou da mensagem de sua tia avó no leito de morte que dizia:
“Amada sobrinha, partirei sem conhecer os seus filhos, mas mandarei um amigo escravo para protege-los em sua caminhada, com amor, tia Francisca”
Esta foi oficialmente a primeira poesia escrita por mim em outubro de 2001 que acabou virando música.

Rock da Enfermaria

Estou numa fria, estou na enfermaria.
Esperando por uma transfusão de petróleo.
Mas o barril de sangue é muito caro.
E hoje eu aprendi a dizer “Good morning”.
Mas nunca aprendi a falar inglês.
Fui naturalizado libanês.

Homem não chora, o importante é competir.
Osana, Osana nas alturas.
Osama que é Osama não tem medo de avião.

Hoje é quatro de Julho e eu vi uma águia chorar.
Isso não era pra ser uma canção de amor.
Querem fazer da vida um decreto.
Aprendi a sofrer e a chorar quieto.

Homem não chora, o importante é competir meu filho.
Osana, Osana nas alturas.
Osama que é Osama não tem medo de avião.

Assim estava escrito atrás da sua camisa de rock.