Ah! Se eu soubesse...
Por Alaor A. Filho
Vejam só como é a vida, depois de anos em busca da “verdade absoluta” de Raul Seixas , duas esposas, duas amantes e quatro filhos, confesso que estou decepcionado.
Aqui estou eu, o patriarca da família na cabeceira da mesa de jantar. Ouvindo atento aos cochichos de gente que eu nem conheço, e se pudesse, jamais convidaria para esta ocasião.
Na garagem onde ficava o carro que já deve estar vendido, lá estão alguns falsos amigos jogando canastra, sinceramente eu prefiro buraco, mas isso não vem ao caso.
No pátio de varanda um semicírculo de parentes insuportáveis fazendo nuvens de fumaça e contando piadas sem graça alguma.
Muitos compareceram somente pelo coquetel de salgadinhos, refrigerante e café dos cinco éfes: fraco, feio, fedido e com formiga no fundo.
O clima é de tensão e mistério, pois ninguém sabe onde escondi todo o dinheiro do banco, mas fiz um mapa para não ficar tão fácil assim. O pior e ter que aturar as hipocrisias e elogios dos bajuladores do senado, até parece que virei santo.
Sinto pena de minha esposa que já era depressiva e agora vai piorar com a chegada de minha amante no tão esperado evento, com certeza as duas vão sair no tapa, e não vou apartar briga de perua nem se pudesse, bem feito, quem mandou fazer greve de sexo.
O mais interessante de tudo é que eu continuo vendo tudo, nunca imaginei que poderia ver com tanta clareza uma situação assim.
Foi quando o meu cunhado metido a poeta debruçou-se em meus pés e declamou seu mais novo poema dedicado a mim:
“A visão sempre foi muito mais que um sentido,
Um sentimento complexo.
Ao mesmo tempo ela não possui som nem fala.
O que vemos então?
Você condenaria um grande abuso?
O que você ainda não viu?
Não toque neste ou naquele assunto.
Queimou os olhos de quem quis.
Trocou pelos seus próprios olhos e pode ver as únicas coisas que ainda não viu.
Só depois viu o que sempre quis ver.
Vá dormir e não veja mais nada,
Pelo seu próprio bem.
Embora você não saiba os seus olhos também dormem.
Desista dos óculos, da amizade e tente não morrer antes do fim.”
Logo depois meus filhos fecharam a tampa e seguimos viagem.
Ah se eu soubesse que o meu velório seria assim, nunca teria disparado uma arma contra o meu ouvido.
Alaor Azambuja Filho é especialista em Língua Portuguesa com batatas e azeitonas.
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